domingo, 5 de abril de 2026

Vida de repórter-2

O dia em que virei refém

Faltavam quinze minutos para as sete no dia 12 de novembro de 1979 – quinze minutos para encerrar meu horário de trabalho como repórter da Agência Folhas – quando o chefe de reportagem José Flávio Ferreira, já falecido, veio avisar de uma rebelião, com reféns, no Presídio do Hipódromo. Parecia coisa grande. E, mesmo contrariado por ter sido pego quase indo embora, tive de encarar a encrenca.

Começamos mal: o motorista do jornal entendeu que a revolta era no Hipódromo – talvez os cavalos recusassem-se a sair das baias, vai saber – e só corrigimos a rota quando já estávamos atravessando a ponte de Vila Guilherme. O presídio ficava na rua do Hipódromo, uma extensa e circundante via que sai dos baixos do viaduto Bresser e chega à Rangel Pestana, no Brás.

Por causa desse erro de trajeto, chegamos ao destino depois que um segundo repórter da Agência – meu amigo José Luiz Lima, também já falecido – já estava na sala da direção, acompanhando a conversa de Pardal, um dos líderes do motim, com o juiz corregedor Renato Laércio Talli. As negociações para o fim da revolta estavam encaminhadas e os detentos queriam apenas a presença de jornalistas, lá dentro, para mostrar que suas denúncias sobre as péssimas condições carcerárias tinham fundamento.

Pardal começou a nominar os veículos de imprensa que queria que vistoriassem as dependências da cadeia, e ia passando batido pelo nome da Folha, até que eu fizesse a sugestão, quase na base do grito, e conseguisse passe livre para acompanhar a visita. Faziam parte dos escolhidos, também, o Jornal da Tarde e a Jovem Pan.

Meu amigo Zé Luiz olhou para mim, meio incrédulo: “Você tem coragem de entrar aí?!”

Por que não? Eu tinha 23 anos. Que mal pode acontecer a um repórter de 23 anos?

Pelo JT, entrou Percival de Souza; pela Pan, Narciso James (também falecido). Um grupo já havia entrado antes de nós, mas não sei quem eram os integrantes. Só me encontrei com um deles – Carlos Nascimento, da Globo – que estava saindo ao mesmo tempo em que entrávamos. Com a saída do ‘Fubá’, os detentos permitiram a entrada de mais um jornalista: Afanásio Jazadji, pela Rádio Globo – é bom frisar que isso aconteceu antes de ele se tornar persona non grata da bandidagem, ao estrear um programa na rádio que costumava confrontar os criminosos.

No térreo da carceragem, o retrato do caos! Máquina de escrever e papéis espalhados pelo chão, vidros e cadeiras quebrados, vitrinas da farmácia arrebentados, extintores de incêndio arremessados contra as paredes, amotinados bebendo éter diretamente do frasco e, a um canto, um preso que, segundo os rebelados, estava havia dois dias com uma bala no corpo, sem atendimento médico.

O interesse deles era nos mostrar o descaso com que eram tratados: a comida péssima, estragada; os presos em trânsito esquecidos ali dentro; a falta de atendimento médico e odontológico; os espancamentos; os presos condenados também esquecidos. (Pela condição de presídio, só poderiam estar ali, legalmente, detentos em trânsito ou sem condenação; para os condenados, com pena a cumprir, existem as penitenciárias.)

As queixas foram se repetindo enquanto subíamos pelas escadas aos dois pavimentos superiores, até a sala onde estavam custodiados os reféns – funcionários da prisão e familiares de presos que estavam em visita. Eles estavam à vontade, dizendo-se bem tratados pelos ‘carcereiros’.

Depois do roteiro, cumprida nossa missão de vistoriar a bagunça, e já próximos do portão de saída, algum desavisado lançou uma bomba de gás lacrimogêneo pela janela do primeiro andar e a situação, até então tranquila, fugiu do controle. De repórteres, passamos para o time dos reféns. Os presos começaram a quebrar móveis e amontoar a madeira na frente do portão, para tocar fogo. Subiam nas grades e gritavam em direção à sala da diretoria que iriam matar os reféns e os jornalistas, que iriam fechar com sangue a história do motim.

A nós, pouco restava a fazer. Percival encolheu-se junto ao portão. Afanásio e eu tentamos convencer os detentos de que seria um erro terminar a rebelião da pior forma possível. Eu, que já conhecia o ‘Sabugo’ de alguns plantões de fim de semana na Agência Folhas, fiquei conhecendo sua conversa sensata, sua capacidade de ponderar, de aconselhar, de mediar. Foi praticamente graças a ele que os líderes Pardal e Renatão foram convencidos, e convenceram os demais, a encerrar a revolta naquele instante, sem maiores represálias.

Enquanto esperávamos os portões serem abertos para a liberdade – a nossa – os líderes conseguiram para mim um cigarro e uma cadeira (intacta) para sentar, porque eu estava exausto.

Virei uma pequena celebridade na saída. Do lado de fora, fui entrevistado por Luísa Borges, da Rádio Tupi, e por um repórter da TV Cultura (Helvídio, acho). Helena de Gramont quase me entrevistou, pela Globo, mas achando que eu era familiar de preso. Durante as entrevistas, ouvi um grito de alívio de outra colega da Agência, Dora Maria Tavares de Lima (que hoje se assina Kramer), por me ver a salvo.

No dia seguinte, fui chamado à redação do Folhão pelo chefe de reportagem, Adílson Laranjeira, que me pediu um texto exclusivo sobre a ‘aventura’ atrás das grades (o que aparece na print).

O medo por que passei em meio de uma rebelião de presos acabou tendo um lado positivo: Adílson me convidou a trocar de redação e, a partir de 1º de dezembro, passei a ser repórter da editoria Local (hoje Cotidiano) da Folha de S. Paulo. Fiquei lá até junho de 1981, quando todos os repórteres do Folhão foram transferidos para a Agência Folhas de Notícias

 

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