Velório de risco
Quando mataram o então presidente da torcida Mancha Verde, do Palmeiras, Cleofas Sostenes Dantas da Silva, em outubro de 1988, eu trabalhava na saudosa Folha da Tarde e fui incumbido pelo chefe Chico Lang de cobrir o velório e escrever uma matéria “para fazer o pessoal chorar”. Não era tarefa fácil. Para fazer o pessoal chorar não tinha mistério. O problema era a cobertura. O enterro de qualquer pessoa morta com violência não oferece um ambiente propício à presença de repórteres. O que esperar se o morto era presidente de uma das torcidas mais violentas do futebol paulista?
Para quem não sabe, ou não se lembra, Cleo entrou para a história da Mancha porque frustrou a torcida corintiana ao aceitar e incorporar o apelido “Porco”, que havia sido atribuído aos palmeirenses pouco antes. E não há nada mais decepcionante para quem apelida alguém do que esse alguém levar o pejorativo na boa e adotá-lo. Cleo oficializou essa adoção entrando em campo com um porquinho verde antes de um jogo do time.
Embora uma coisa nada tenha a ver com a outra, no dia 17 de outubro ele levou três tiros em plena rua Padre Antônio Tomás, diante da sede da Mancha Verde, a poucos metros do Parque Antártica. Mas, voltando ao velório, senti de cara que meus temores eram justificados: não havia sequer um carro de reportagem na rua e não vi nenhum coleguinha rondando pelas imediações ou mesmo dentro do velório do Cemitério do Araçá. Eu estava por mim.
Tinha de contar com minha intuição, minha sorte e, principalmente, minha humildade se quisesse sair de lá com um texto na mão (e em condições físicas de escrevê-lo). Mas até que não foi tão difícil: depois de procurar entre dezenas de jovens enormes – parece que a compleição física é quesito essencial para se entrar numa organizada – descobri um que, apesar de forte (de modo que eu poderia me esconder atrás dele se algo acontecesse), não trazia sangue no olhar. Ao contrário, parecia ter os olhos calmos de quem está ali para prestar solidariedade. Parecia ser a pessoa ideal para me ancorar durante a missão.
Apresentei-me: “Antes de tudo, sou palmeirense. Mas, além disso, sou repórter e estou aqui para acompanhar o enterro e preciso de alguém que me ajude, antes que o pessoal me ponha para correr”. Compreensivo, embora sem entusiasmo com a situação, ele se apresentou como “Batuíra”. Ficamos conversando discretamente durante boa parte do velório. Outros integrantes da torcida vieram juntar-se a nós e, dali a pouco, embora sempre houvesse um ou outro olhar enviesado, eu já me considerava membro honorário da Mancha Verde.
Acompanhei o cortejo até a boca do túmulo, acompanhei o pessoal da torcida cantando o hino do Palmeiras e o presidente do clube, Nélson Duque, finalizando, aos prantos, com um “e dál-lhe Porco, e dá-lhe Porco...”. No dia seguinte, encontrei alguns dos meus novos amigos que foram depor no 23º Distrito Policial (Perdizes), responsável por apurar a autoria do crime, e um deles, louro de cabelos compridos, confessou ter “chorado muito” ao ler “tudo o que você escreveu”.
Missão cumprida, pois. Além de cumprida, única: eles me
garantiram – e hoje algum colega até pode contestar isso – que eu fui o único
repórter a acompanhar o velório e o sepultamento de Cleo Sostenes.






