domingo, 24 de maio de 2026

Vida de repórter-9

 

Napoleão

Fisicamente, ele lembrava mesmo o imperador francês: baixinho, cabelinho liso empurrado para o lado, o mesmo olhar inquisidor e insolente... Mas duvido que Napoleão Bonaparte, o histórico, tivesse a mesma veia artística e a mesma capacidade de transmitir tanto o belo quanto o transgressor como nosso Napoleão, também conhecido como Ari de Moraes Possato. 

Ele teria 82 anos hoje, completados em fevereiro. Não me lembro o ano de sua morte, mas, pelo tanto que convivi com ele, tenho certeza de que aconteceu porque seu corpo não suportou a intensidade de sua vida. Trabalhei com ele na Folha de S. Paulo e na revista Agora, da Editora Três. Mas não nos separamos nem no intervalo entre os dois empregos, quando – eu ainda na Folha e ele no Diário Popular – nos encontrávamos pelas pautas da vida, e a primeira informação que trocávamos era a localização do bar mais próximo.

Tanto quanto eu, na época, ele era dado a “libações alcoólicas”, maneira um pouco menos mundana de tomar umas e outras. Dono de um texto enxuto e certeiro, Napoleão foi dos melhores repórteres policiais que conheci e com quem tive o privilégio de aprender. Depois de largar a profissão, eu já morando em Florianópolis, conheci seu lado artista plástico – algo que me surpreendeu. Recebi em casa, pelos Correios, dois envelopes contendo pinturas dele. A última vez que o vi foi na praça da República, em São Paulo, expondo seus quadros. Ele me disse, naquela época, que estava bebendo “só um pouquinho”.

Napoleão tinha um descontrole motor causado, segundo me disse uma vez, por um AVC que sofreu aos 12 anos de idade. Essa disfunção o obrigava a escrever suas matérias com apenas uma das mãos – com apenas um dos dedos, para ser mais exato. Ele firmava a mão direita na base da máquina de escrever, enquanto o indicador da mão esquerda martelava raivosamente o teclado. Desse metralhar barulhento, saíam suas grandes matérias.

Mas a descoordenação não afetava apenas na missão de escrever. Lembro-me de uma ocasião em que o ato de se alimentar quase chegou a causar uma tragédia. Foi numa situação que, não fosse constrangedora, seria até cômica:

1 − Estávamos cobrindo a visita de alguma autoridade às obras de uma estação de tratamento de esgotos em Osasco. Depois da visita, a empreiteira que tocava a obra ofereceu um almoço trivial aos repórteres. Era arroz, feijão, uma saladinha de tomate... e um enorme bife por cima. Se eu não tivesse controle pleno sobre o movimento de minhas mãos, certamente pediria que alguém me ajudasse e cortasse o bife em pedaços. Mas Napoleão pensava diferente, e resolveu partir para o tudo ou nada usando apenas a “mão boa”, a esquerda.

2 – Ele enfiou o garfo no bife e levou a carne à boca, tentando cortá-la com os dentes. Como o pedaço era muito grande e não se rompia, o bife foi sendo enrolado no garfo, e ele rolando o garfo com a mão sem largar o coxão mole, até que o talher escapou do controle e, com carne e tudo, foi atingi-lo no rosto, alguns centímetros abaixo do olho direito. Entretanto, ele não se deu por vencido: limpou com um guardanapo o sangue que fluía em certa quantidade do ferimento, fez de conta que nada tinha acontecido e, com mais alguns ataques, conseguiu vencer o bife que ousara desafiá-lo.

***

Esta é só uma historinha. Tenho certeza de que muitos repórteres que conviveram com ele têm relatos ainda melhores para dividir conosco. Fica aqui neste espaço o convite. Afinal, Napoleão era uma lenda – pelo menos para mim.

domingo, 17 de maio de 2026

Vida de repórter-8

Fugindo da briga

Só me lembrei desta história quando vi a foto – e me reconheci nela – publicada pelo autor, Roberto Faustino, o querido Robertinho, no Facebook. Era a imagem de uma pancadaria patrocinada pela PM contra os metalúrgicos de São Bernardo do Campo, durante a greve de 1980: no fundo da paisagem turbulenta, com cara de apavorado, mas imune à fúria dos fardados, lá estava este incólume repórter!

Cobrir greve não era exatamente a minha área, mas fui escalado pela Folha de S. Paulo para fazer as matérias de ambiente, enquanto dois medalhões – Ricardo Kotscho e Odilon Guimarães – cobriam o movimento grevista em si. O material rendia uma página diária, editada pelo saudoso Clóvis Rossi. Outro saudoso, Ubirajara Dettmar, cuidava das fotos.

Naquele ano, o Sindicato dos Metalúrgicos estava sob intervenção e a PM ocupava a rua João Basso, onde funcionava a sede da entidade. Lula, que presidia o sindicato, estava preso. Os trabalhadores faziam suas assembleias na frente da Igreja matriz de São Bernardo, e depois seguiam pela rua Marechal Deodoro, em passeata. Eram inevitáveis os protestos quando o grupo chegava diante do cordão de isolamento armado na esquina com a João Basso.

Numa dessas, a receita desandou. Os PMs que compunham o cordão de isolamento, todos armados de fuzis, resolveram responder às provocações dos trabalhadores do melhor jeito que lhes ensinaram: na porrada!

Foram para cima dos grevistas com sede. Chegaram a quebrar a coronha do fuzil nas costas de um deles. As portas do comércio estavam fechadas. Quando vi a massa de capacetes azuis vir em minha direção, encostei-me na porta de uma loja e deixei bem visível que estava com um calhamaço de papel na mão, anotando. Julguei que estaria mostrando que era repórter e que estaria a salvo das agressões.

Não sei exatamente por que, mas deu certo. A pancadaria durou quase cinco minutos, e eu continuei parado junto à porta da loja outros cinco minutos, para restabelecer os batimentos cardíacos. “Foi boa sua tática, de ficar parado anotando”, avaliou um colega. Eu não respondi isso na hora, mas poderia ter dito: não foi tática, minhas pernas é que estavam paralisadas, mesmo!

 Em tempo: a foto de Roberto Faustino, que atuava pela Cooperativa dos Jornalistas de São Paulo, foi publicada pelo Jornal da Tarde e ganhou o Prêmio Herzog em 1980.

domingo, 10 de maio de 2026

Vida de repórter-7

Esse cara sou eu!

Quando João Paulo 2º esteve pela primeira vez no Brasil, em 1980, eu ainda não tinha registro profissional como jornalista diplomado – embora tivesse sido diplomado três anos antes e trabalhava pela Folha de S. Paulo – e portanto não poderia ser credenciado para a cobertura da visita do Sumo Pontífice. 

Não ser credenciado significava que eu não poderia estar presente na área reservada onde ocorriam os eventos papais, mas nada impedia que eu fosse um repórter que pudesse estar no espaço livre, onde o povo poderia estar, e, dali, acompanhasse pelas beiradas a programação de Sua Santidade. Aliás, ‘onde o povo poderia estar’ não era pouca coisa: foi como simples representante do povo que vi o Papa em pé no ônibus, a poucos metros de mim, e compreendi sem restrições o sentido da palavra carisma.

Ainda dentro dessa área liberada à presença popular estava o espaço diante do Colégio Santo Américo, no Morumbi, onde João Paulo 2º hospedou-se depois da missa no estádio Cícero Pompeu de Toledo, a pouco mais de um quilômetro dali. Centenas de pessoas – entre elas, simpáticas moçoilas argentinas da instituição Totus Tuus – postaram-se na rua Santo Américo, travessa da avenida Giovanni Gronchi, para ver e, quem sabe, ser abençoadas pelo ilustre visitante. 

Foi no colégio que o Papa reuniu-se com o líder metalúrgico Luiz Inácio da Silva (não me lembro se o apelido Lula já havia sido incorporado ao nome). Acompanhado do dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, Lula chegou ao Santo Américo no finalzinho da tarde.

Fazia muito frio naquela tarde/noite de junho, e os repórteres só saíam da porta do colégio para tomar um pouco de calor em forma de conhaque numa padaria ali perto, na rua Panônia. É claro que as manifestações populares interessavam na cobertura, mas a maior parte da imprensa estava lá para saber o que o Papa tinha conversado com Lula. E a conversa dele com João Paulo 2º parecia não acabar nunca...

Já eram quase 22 horas e o sindicalista não saía. Numa rodinha diante do portão, os jornalistas questionavam se o colégio não teria uma outra saída e se não era possível que Lula tivesse ido embora sem que notássemos, quando eu, vigilante que só um pastor alemão – tirando as rápidas escapadas para o conhaque na padaria – disse, categórico: 

– Ele está aí dentro ainda, tenho certeza. Ele e o Frei Betto. 

Do outro lado da rodinha, em posição diametralmente oposta à minha, um homem de óculos e cabelos ligeiramente revoltos contestou: 

EU sou o Frei Betto!

(Santo homem! Ele não disse aquilo num tom jocoso, ou de censura. Foi como a leitura de uma premissa lógica: eu sou Frei Betto e estou aqui fora; logo, não posso estar lá dentro!)

Não me lembro se minha ignorância repercutiu entre os demais colegas. Devo ter bloqueado essa parte da memória, ou devo ter enfiado a cabeça dentro do casaco para me disfarçar como parte da paisagem. Só sei que felizmente não houve tempo para comentários, porque Lula saiu da reunião que tivera com o Papa e foi cercado pelos repórteres que até então faziam parte da rodinha na rua Santo Américo.

Nunca mais estive próximo a Frei Betto. Mas tenho certeza de que, se houvesse uma segunda vez, eu não deixaria de reconhecê-lo!
 

domingo, 3 de maio de 2026

Vida de repórter-6

O dia em que entrevistei Lucélia Santos

Foi com a atriz Lucélia Santos que vivi talvez minha primeira aventura como jornalista. A aventura não foi exatamente – e infelizmente – com Lucélia, mas envolveu as circunstâncias em que se deu uma entrevista que fiz com ela, eu em início de carreira, em 1978. Afinal, só pode ser chamado de aventura, ou desventura, ou porra-louquice, o fato de você viajar de São Paulo ao Rio tendo praticamente o dinheiro da passagem no bolso, sobreviver uma semana numa cidade estranha e ainda voltar para casa com o primeiro frila de uma profissão que, apesar de tudo, é capaz de provocar algumas lembranças boas.

Foi em novembro de 1978, durante o gozo de minhas primeiras férias como repórter da 'Folha' – e essa informação inicial já serve para mostrar que tanto Lucélia quanto eu já temos mais de 40 anos de carreira. Saí de São Paulo pré-pautado: tinha acertado com o competente Valdir Zwetsch, editor da revista adolescente Geração Pop, da Abril, que traria uma entrevista com Chico Buarque sobre os jovens e outra com o elenco do seriado Ciranda, Cirandinha, da Globo, também centrado nos jovens: Lucélia, Fábio Jr., Denise Bandeira e Jorge Fernando.

Tinha o telefone da casa de Chico, e a primeira coisa que fiz no Rio, logo depois de instalar-me num hotelzinho de quinta categoria próximo à praça Tiradentes, foi ligar para ele. Em vão: um problema no cabeamento na região da Gávea tornava impossível falar com o grande Chico Buarque de Holanda por telefone.  A sorte – embora mais tarde veremos que isso de útil nada me trouxe – foi ter conseguido encontrar com ele na porta do Teatro Ginástico, onde Marieta Severo estrelava a peça Ópera do Malandro. Chico até se dispôs a uma entrevista, desde que encaixada entre as gravações do especial de final de ano que estava sendo produzido para a Bandeirantes, mas pediu que eu lhe telefonasse para marcar. Seu telefone, porém, continuou impraticável.

Paralelamente, consegui o telefone de Lucélia na sala de imprensa em frente à Globo, com uma repórter que cobria a emissora. A atriz morava numa cobertura da avenida Almirante Saddock de Sá, perto da lagoa Rodrigo de Freitas. Era casada com o maestro John Neschling. Lucélia foi um amor: atenciosa, depois de meia hora de entrevista, quis que o repórter a acompanhasse a uma apresentação sei lá de quem no Teatro Tablado. Sem um puto no bolso, o repórter deu um jeito de recusar, com o apoio tácito de Neschling – que, apesar da tentativa de mostrar-se simpático, nunca escondeu que não gostaria que o relacionamento se estendesse além daqueles 30 minutos de entrevista.

Aliás, esses 30 minutos com Lucélia Santos acabaram sendo meu único resultado vitorioso no Rio. Durante a semana que passei lá – ora almoçando, ora jantando, ora sem um nem outro (teve dia que passei com dois sonhos de padaria) – fui todos os dias à porta do Teatro Ginástico, na tentativa de encontrar-me novamente com Chico, já que o telefone só dava ocupado. E o que eu consegui, entretanto, foi somente encher o saco de Marieta Severo. Todos os dias, quando ela estacionava sua Brasília azul – com o para-lama dianteiro esquerdo ralado e o para-choque sem a polaina – no subsolo do teatro, eu abria a porta do carro e ela descia com um sorridente, mas nem por isso menos incisivo, “você de novo?”.

Vale lembrar que Marieta mostrou-se bastante acessível e compreensiva e se dispôs a servir de ponte entre o entrevistador e o entrevistado. Até que ponto essa disposição foi sincera, não sei. Só sei que estou até hoje esperando pela entrevista.

Na volta a São Paulo, meu dinheiro foi suficiente para a passagem Rio-SP, para o ônibus da rodoviária até minha casa em Pirituba e para um croquete de carne numa das paradas do velho Cometão. Minha permanência no Rio durante uma semana era tão improvável que fiquei sabendo, ao chegar, que a família tinha ligado para a polícia carioca, na tentativa de localizar meu cadáver. Fui recebido em casa com um monte de impropérios e de caras amarradas. A bronca pela porra-louquice da viagem era maior do que a alegria de me rever inteiro.

Mas houve a recompensa: a entrevista com Lucélia Santos foi publicada na edição de janeiro da Pop e rendeu um troquinho salvador.

 

domingo, 26 de abril de 2026

Vida de repórter-5

Jornalismo off-line

No aniversário de 20 anos do advento da internet, a Folha incumbiu o repórter Bruno Fávero de fazer matéria como se fazia 20 anos antes, quando não havia a rede mundial de computadores. Diz o texto que abre a matéria publicada no site do jornal: “Gravador portátil devidamente equipado com fita cassete e pilhas, bloco de papel, caneta e orelhão. Materiais que parecem jurássicos para jornalistas de hoje eram usados há apenas 20 anos na profissão, quando a internet ainda dava os primeiros passos no Brasil”.

Os leitores mais jovens hão de duvidar que alguém consiga trabalhar sem os recursos do Google, do WhatsApp, dos e-mails, do envio imediato de textos e fotos... Pois vou contar um segredo: fiz isso durante pelo menos durante 20 anos. Eu e minha geração de jornalistas – além, é claro, das gerações anteriores – fizemos não apenas uma matéria, como Bruno Fávero, mas TODAS as nossas matérias sem os recursos disponíveis hoje em dia num simples clique no teclado ou no mouse. Éramos os jornalistas off-line, simplesmente porque ainda não existia a LINE.

Nossas pesquisas eram em meio a poeira, no arquivo do jornal, o chamado banco de dados. Nossa comunicação, enquanto estávamos na rua, era por meio de orelhões, com fichas telefônicas (os cartões vieram muito mais tarde). Não havia internet e também não havia celulares. Às vezes, em determinadas circunstâncias, tornava-se impossível você, da rua, entrar em contato com a redação. Uma dessas situações aconteceu comigo e é com ela que pretendo ilustrar esse confronto entre épocas:

Aconteceu no Natal de 1980, 25 de dezembro. Os presos da Penitenciária do Estado resolveram se rebelar. A imprensa toda foi mandada para a entrada da cadeia, na avenida Ataliba Leonel, Zona Norte de São Paulo. O chefe de Reportagem de plantão na Folha de S. Paulo era o Candinho (Cândido Cerqueira Silva), e ele me despachou para o local, mandando que o mantivesse informado – por orelhão, é bom lembrar. A Agência Folhas, que trabalhava para todos os veículos do grupo, mandou o repórter Jorge Zappia, meu amigo e colega de faculdade. Como estávamos em dois carros com a mesma origem/destino, achamos melhor, por questão de logística (plantões tinham menos veículos disponíveis), dispensar um deles. Eu achava que, justamente por ser dia de Natal, o motim seria rapidamente dissolvido. Tinha duas fichas telefônicas no bolso e achei que seriam suficientes.

(Sete anos mais tarde, conheci Cristina Sant’Anna, que foi minha editora na extinta Folha da Tarde; Cris tinha uma moedeira estufada com fichas telefônicas e a entregava ao repórter que tivesse de ir para a rua numa situação imprevista – mas, infelizmente, como eu disse, só fui conhecê-la sete anos depois.)

A rebelião ia se estendendo. Os repórteres estavam confinados junto ao primeiro portão do complexo, sem qualquer informação. Já eram quase seis da tarde quando gastei minha segunda ficha e rodei mais de um quilômetro pelas imediações, procurando inutilmente um lugar para comprar mais. Sem fichas telefônicas, sem comunicação com a redação – não existiam celulares, lembram-se? – apostei na sorte de a situação resolver-se em no máximo uma ou duas horas. 

Pouco antes das nove, os repórteres puderam chegar mais perto do portão principal e começaram a brotar as primeiras informações: tudo estava sob controle, não havia feridos, a tropa de choque já havia cumprido a missão e iria sair do presídio... E,  enquanto afirmavam que tudo estava bem, um pastor alemão da PM passava com a boca cheia de sangue. Ou seja, as informações reais ainda estavam para chegar... 

Rebeliões em prisões nunca acabam bem. Eu não podia abandonar o campo de batalha sem notícias mais precisas. Passava das dez quando decidimos em comum acordo que o Zappia voltaria para o jornal com as informações disponíveis (tínhamos apenas um carro, e ele escreveria para todos os jornais do grupo). Pedi-lhe que, assim que chegasse, procurasse o plantonista de fechamento da Folha de S. Paulo – que, no dia, era o Carlinhos Machado – e lhe informasse da situação, passando-lhe rapidamente amatéria para o fechamento.  

Era quase meia-noite quando finalmente voltei para a redação, com informações mais completas. O Zappia ainda estava escrevendo e me deu a má notícia: o Carlinhos disse simplesmente que o jornal já estava fechado e que ele não esperaria o texto dele. Em vista disso, passei algumas informações para o Zappia e fui para casa.

No dia 26 de dezembro de 1980, a Folha de S. Paulo foi provavelmente o único jornal a não dar uma linha sobre a rebelião. Quando cheguei à redação, tomei um esporro homérico do chefe de reportagem Adilson Laranjeira – quem trabalhou com ele sabe exatamente do que estou falando – e ganhei uma suspensão por não ter cumprido minha obrigação de ter voltado para a redação a tempo de entregar a matéria para que o Carlinhos Machado não fechasse o jornal sem a notícia. Ainda se tivesse passado pelo telefone... 

Bóris Casoy, que era o editor da Folha, acabou abrandando minha punição: eu fora suspenso, segundo ele, porque a chefia pensava que eu não tinha voltado para a redação depois do motim, que tinha ido direto para casa, deixando a incumbência de escrever a matéria para o Jorge Zappia. Assumo parte da culpa pelo que aconteceu. Foi um pouco de inépcia de minha parte. Não poderia ter confiado na solução rápida do conflito. E devia ter-me abastecido com fichas telefônicas. Porque, afinal, não tínhamos celular ou WhatsApp.

 

domingo, 19 de abril de 2026

Vida de repórter-4

 

O fotógrafo abre-alas

Tínhamos na redação da revista Agora! (Editora Três, 1984-1985) um fotógrafo (cujo nome não vou citar) que usava uma artimanha, uma espécie de jogo de palavras, para franquear nossa entrada em locais onde normalmente a imprensa não era bem-vinda, especialmente prontos-socorros e hospitais: ele dizia ao desavisado recepcionista que tínhamos passado por determinado órgão policial e, aparentemente, teríamos nossa entrada liberada pela autoridade.

“Nós viemos do Deic”, por exemplo, “e queríamos conversar com o rapaz baleado”, era a senha para facilitar nosso acesso. Ele não dizia “nós somos”, mas “nós viemos”, o que para um funcionário com pouco estudo poderia não ter diferença alguma. Ao dizer que nós ‘viemos’, ele poderia alegar, caso fosse desmascarado, que não mentira, porque em momento algum dissera ‘ser’ policial. Nós não tínhamos exatamente passado pelo Deic, mas essa era uma inverdade menor e menos passível de castigo.

A realidade é que isso funcionava. O atendente provavelmente achava que éramos policiais, não pedia identificação e liberava nossa entrada para conversar com o rapaz baleado, ou outro desgraçado qualquer que estivesse por ali sucumbindo às sequelas da vida torta. Não me lembro de ter encontrado obstáculos para entrar onde quer que quiséssemos.

Mas uma vez a história não rolou exatamente como queríamos que rolasse... 

Foi em Mauá, região do ABC paulista. Um pequeno sorveteiro de nove anos havia sido vítima de tentativa de castração e estava internado no hospital local. Os bandidos o confundiram com outro garoto e tentaram retirar-lhe os bagos sem anestesia ou procedimentos cirúrgicos adequados. Nossa missão, para a revista, era fotografar e conversar com o menino.

Passamos pela delegacia, pegamos algumas informações e partimos para o, como se dizia antigamente, nosocômio. O fotógrafo escondeu a câmera às costas, prendendo-a com a alça de ombro a ombro e vestindo sua jaqueta por cima. No elevador, ficamos sabendo por uma faxineira que a ala pediátrica era no terceiro andar. Na saída do elevador, no terceiro andar, fomos abordados por uma enfermeira. “Nós viemos da delegacia, estivemos com o doutor... (não me lembro do nome do delegado da ocasião), e queremos ver o garoto que foi castrado”, adiantou-se meu parceiro.

Uma coincidência nos ajudou nesse caso: havia um médico no hospital com o mesmo nome do delegado, e a enfermeira entendeu que tínhamos falado com ele, o médico. Por isso, não opôs resistência a nossa entrada na enfermaria. Abriu a porta, mostrou o garoto – que estava deitado logo na primeira cama, junto à porta – eu perguntei-lhe o que lhe fizeram, o pequeno sorveteiro saltou do colchão e baixou o pijama para mostrar o porta-culhões avariado. 

Nesse momento, o fotógrafo tirou a jaqueta, sacou a câmera das costas e bateu uma chapa (ainda não havia fotografia digital). Quase imediatamente, caiu a ficha e a enfermeira entendeu o moral da história... Poderia parar tudo por aí, sermos expulsos do hospital e termos umas lembranças divertidas a contar aos nossos netos... Mas a enfermeira chamou o diretor do hospital, e antes que tentássemos justificar as ousadias que pareciam acompanhar cada repórter policial, estávamos diante de um oriental baixinho, de caneta em riste, que anotou os dados do fotógrafo, enquanto determinava que a polícia fosse chamada.

A essa altura, o filme já havia sido retirado da câmera e eu já o havia levado para o carro. Quando estávamos deixando o estacionamento, uma viatura da PM estava entrando. 

Em resumo: depois de ouvirmos muito “isso não vai dar em nada”, “hospital não é domicílio” e “eles vão acabar deixando pra lá”, fomos processados e condenados por invasão de domicílio, com pena confirmada em segunda instância. Nossa sorte foi a primariedade, que nos garantiu sursis, porque, embora abrisse algumas portas, a artimanha do fotógrafo não nos tornava inimputáveis!


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Vida de repórter-3

 

Velório de risco

Quando mataram o então presidente da torcida Mancha Verde, do Palmeiras, Cleofas Sostenes Dantas da Silva, em outubro de 1988, eu trabalhava na saudosa Folha da Tarde e fui incumbido pelo chefe Chico Lang de cobrir o velório e escrever uma matéria “para fazer o pessoal chorar”. Não era tarefa fácil. Para fazer o pessoal chorar não tinha mistério. O problema era a cobertura. O enterro de qualquer pessoa morta com violência não oferece um ambiente propício à presença de repórteres. O que esperar se o morto era presidente de uma das torcidas mais violentas do futebol paulista? 

Para quem não sabe, ou não se lembra, Cleo entrou para a história da Mancha porque frustrou a torcida corintiana ao aceitar e incorporar o apelido “Porco”, que havia sido atribuído aos palmeirenses pouco antes. E não há nada mais decepcionante para quem apelida alguém do que esse alguém levar o pejorativo na boa e adotá-lo. Cleo oficializou essa adoção entrando em campo com um porquinho verde antes de um jogo do time.

Embora uma coisa nada tenha a ver com a outra, no dia 17 de outubro ele levou três tiros em plena rua Padre Antônio Tomás, diante da sede da Mancha Verde, a poucos metros do Parque Antártica. Mas, voltando ao velório, senti de cara que meus temores eram justificados: não havia sequer um carro de reportagem na rua e não vi nenhum coleguinha rondando pelas imediações ou mesmo dentro do velório do Cemitério do Araçá. Eu estava por mim.

Tinha de contar com minha intuição, minha sorte e, principalmente, minha humildade se quisesse sair de lá com um texto na mão (e em condições físicas de escrevê-lo). Mas até que não foi tão difícil: depois de procurar entre dezenas de jovens enormes – parece que a compleição física é quesito essencial para se entrar numa organizada – descobri um que, apesar de forte (de modo que eu poderia me esconder atrás dele se algo acontecesse), não trazia sangue no olhar. Ao contrário, parecia ter os olhos calmos de quem está ali para prestar solidariedade. Parecia ser a pessoa ideal para me ancorar durante a missão.

Apresentei-me: “Antes de tudo, sou palmeirense. Mas, além disso, sou repórter e estou aqui para acompanhar o enterro e preciso de alguém que me ajude, antes que o pessoal me ponha para correr”. Compreensivo, embora sem entusiasmo com a situação, ele se apresentou como “Batuíra”. Ficamos conversando discretamente durante boa parte do velório. Outros integrantes da torcida vieram juntar-se a nós e, dali a pouco, embora sempre houvesse um ou outro olhar enviesado, eu já me considerava membro honorário da Mancha Verde.

Acompanhei o cortejo até a boca do túmulo, acompanhei o pessoal da torcida cantando o hino do Palmeiras e o presidente do clube, Nélson Duque, finalizando, aos prantos, com um “e dál-lhe Porco, e dá-lhe Porco...”. No dia seguinte, encontrei alguns dos meus novos amigos que foram depor no 23º Distrito Policial (Perdizes), responsável por apurar a autoria do crime, e um deles, louro de cabelos compridos, confessou ter “chorado muito” ao ler “tudo o que você escreveu”. 

Missão cumprida, pois. Além de cumprida, única: eles me garantiram – e hoje algum colega até pode contestar isso – que eu fui o único repórter a acompanhar o velório e o sepultamento de Cleo Sostenes.

Vida de repórter-9

  Napoleão Fisicamente, ele lembrava mesmo o imperador francês: baixinho, cabelinho liso empurrado para o lado, o mesmo olhar inquisidor e i...