segunda-feira, 15 de maio de 2023

Na verdade

Meu neto Murilo, de cinco anos, começou a dizer ‘na verdade’ no começo de cada observação que faz. Não sabemos como aprendeu, mas deve ser da mesma forma que certas expressões passam a ser repetidas à exaustão por todo mundo, notadamente as pessoas menos dotadas de vocabulário próprio.

 

Não faz muito tempo, todo mundo falava ‘com certeza’ mesmo quando não se tinha certeza de nada. E para todo mundo qualquer atividade não corriqueira que traga sequelas também não corriqueiras é ‘gratificante’. Mesmo quando não é. Certas expressões viram moda e suas repetições se tornam irritantes.

 

Jornalista tem muito disso, embora devesse primar pelo vocabulário. A gente chama esse defeito – que mais parece preguiça de pensar e pesquisar – de uso do lugar comum. É um tal de festa que ‘não tem hora pra acabar’, dinheiro que dá para comprar ‘não sei quantos carros populares’ e área equivalente a ‘não sei quantos campos de futebol’.

 

Se jornalista, que deveria ser um exemplo de originalidade, comete o pecado de não ser original com tanta facilidade, por que as pessoas normais não podem cometer? Ensiná-las a não ser ‘macaquinhos’ com as palavras dos outros não vai ser fácil, porque são muitas as cabeças a orientar.

 

Particularmente, posso tentar desconstruir o eco da expressão na cabeça de meu neto, dizendo que ele deve usá-la somente quando for corrigir uma informação que ele mesmo passou. Pensei até no exemplo para isso: alguém oferece purê de batatas e você diz que não gosta; aí, você corrige – ‘na verdade, até gosto de purê de batatas, mas não quero comer agora!’

 

É ‘com certeza’ um bom exemplo, mas pode não servir de parâmetro para ele: ‘na verdade’, o Murilo não gosta de purê de batatas! 

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