A partir de hoje, e nos próximos domingos, vou disponibilizar neste blog historinhas dos tempos em que trabalhei como repórter. A maior parte dessas histórias foi publicada pelo semanário 'Jornalistas&Cia', de acesso restrito a assinantes. Publicando-as aqui, democratizo o acesso. Espero que gostem!
Luzes, câmera, ação
Esta aqui aconteceu em meu início de carreira, e é bem de foca, mesmo!
Quando comecei a fazer reportagem policial na Folha de S.Paulo, em 1977, o 3º DP ficava na rua Vitorino Carmilo, nos Campos Elísios. Era só seguir a Barão de Limeira até o final, entrar à esquerda na Lopes de Oliveira e em seguida na segunda rua à direita. Foi nessa delegacia o meu début na reportagem, onde fiz a matéria que serviu de teste para que o chefe Hely Vanini de Araújo me aceitasse em sua equipe de feras.
Pois bem. Não foi muito depois desse meu voo inaugural que voltei ao 3º Distrito para cobrir um novo caso, não me lembro qual – afinal, isso foi há 39 anos!
No térreo do prédio, à esquerda de quem entra, havia uma espécie de cercadinho, feito com balaústres de madeira torneada, onde ficava a mesa do delegado de plantão. Entrei, o delegado estava sozinho na mesa, achei-o com cara conhecida e me aproximei:
– Boa tarde, doutor, sem querer atrapalhar os trabalhos, gostaria de ter informações sobre essa prisão de hoje...
O delegado mal relanceou os olhos sobre mim, como se eu sequer estivesse lá, e voltou a olhar para o ponto onde estava olhando antes que eu me aproximasse. Estranhei o comportamento dele, mas estranhei ainda mais quando uma voz soou atrás de mim:
– Ô, companheiro, dá licença aí que a gente está filmando!
Olhei para a origem da voz e me deparei com um aparato que certamente não deixaria de ter visto se não entrasse olhando diretamente para o cercadinho do plantão: três ou quatro rapazes, dois grandes refletores e uma câmera cinematográfica de 35 mm. Numa cadeira ao lado do grupo, literalmente refestelado e com ar blasé, o ator José Lewgoy.
Só então caiu a ficha – se bem que na época não se usava a expressão “cair a ficha” – e descobri por que o delegado me pareceu conhecido: era o ator David Neto, que na época tinha certa evidência nas novelas da tevê. Por isso não me deu a mínima quando o interpelei: porque era um delegado de ficção, personagem de um filme que só identifiquei pouco depois, quando o “ator”’ principal entrou em cena – o repórter de rádio Gil Gomes.
Resumindo, por pouco não fiz inadvertidamente uma participação especial no filme ‘O outro lado do crime’, lançado em 1978.
Não vi o filme. Só sei que tratava da história de um marido que arrumou uma amante e que, falido depois de dar tudo para ela, começou a arquitetar a morte da esposa para receber o seguro, sendo desmascarado por um repórter mais esperto do que ele.
E certamente mais esperto também do que este repórter aqui...

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