domingo, 10 de maio de 2026

Vida de repórter-7

Esse cara sou eu!

Quando João Paulo 2º esteve pela primeira vez no Brasil, em 1980, eu ainda não tinha registro profissional como jornalista diplomado – embora tivesse sido diplomado três anos antes e trabalhava pela Folha de S. Paulo – e portanto não poderia ser credenciado para a cobertura da visita do Sumo Pontífice. 

Não ser credenciado significava que eu não poderia estar presente na área reservada onde ocorriam os eventos papais, mas nada impedia que eu fosse um repórter que pudesse estar no espaço livre, onde o povo poderia estar, e, dali, acompanhasse pelas beiradas a programação de Sua Santidade. Aliás, ‘onde o povo poderia estar’ não era pouca coisa: foi como simples representante do povo que vi o Papa em pé no ônibus, a poucos metros de mim, e compreendi sem restrições o sentido da palavra carisma.

Ainda dentro dessa área liberada à presença popular estava o espaço diante do Colégio Santo Américo, no Morumbi, onde João Paulo 2º hospedou-se depois da missa no estádio Cícero Pompeu de Toledo, a pouco mais de um quilômetro dali. Centenas de pessoas – entre elas, simpáticas moçoilas argentinas da instituição Totus Tuus – postaram-se na rua Santo Américo, travessa da avenida Giovanni Gronchi, para ver e, quem sabe, ser abençoadas pelo ilustre visitante. 

Foi no colégio que o Papa reuniu-se com o líder metalúrgico Luiz Inácio da Silva (não me lembro se o apelido Lula já havia sido incorporado ao nome). Acompanhado do dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, Lula chegou ao Santo Américo no finalzinho da tarde.

Fazia muito frio naquela tarde/noite de junho, e os repórteres só saíam da porta do colégio para tomar um pouco de calor em forma de conhaque numa padaria ali perto, na rua Panônia. É claro que as manifestações populares interessavam na cobertura, mas a maior parte da imprensa estava lá para saber o que o Papa tinha conversado com Lula. E a conversa dele com João Paulo 2º parecia não acabar nunca...

Já eram quase 22 horas e o sindicalista não saía. Numa rodinha diante do portão, os jornalistas questionavam se o colégio não teria uma outra saída e se não era possível que Lula tivesse ido embora sem que notássemos, quando eu, vigilante que só um pastor alemão – tirando as rápidas escapadas para o conhaque na padaria – disse, categórico: 

– Ele está aí dentro ainda, tenho certeza. Ele e o Frei Betto. 

Do outro lado da rodinha, em posição diametralmente oposta à minha, um homem de óculos e cabelos ligeiramente revoltos contestou: 

EU sou o Frei Betto!

(Santo homem! Ele não disse aquilo num tom jocoso, ou de censura. Foi como a leitura de uma premissa lógica: eu sou Frei Betto e estou aqui fora; logo, não posso estar lá dentro!)

Não me lembro se minha ignorância repercutiu entre os demais colegas. Devo ter bloqueado essa parte da memória, ou devo ter enfiado a cabeça dentro do casaco para me disfarçar como parte da paisagem. Só sei que felizmente não houve tempo para comentários, porque Lula saiu da reunião que tivera com o Papa e foi cercado pelos repórteres que até então faziam parte da rodinha na rua Santo Américo.

Nunca mais estive próximo a Frei Betto. Mas tenho certeza de que, se houvesse uma segunda vez, eu não deixaria de reconhecê-lo!
 

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