A
segunda CNH
Ao completar 90 anos, em 1911, a Folha disponibilizou na internet as quase 33 mil edições que havia posto nas bancas desde 1921.
Como um dos soldados do jornal em quase dez por cento desse período – na época ainda em preto e branco – tratei de procurar nesse acervo algo que marcasse minha participação na história do jornal. E achei.
Tal qual um paleontólogo, localizei uma edição de mais de 40 anos atrás, com um fato raro: o repórter – ele mesmo – virar chamada de primeira página do jornal por causa de sua matéria.
Está na capa do jornal, para quem quiser ver: aquele rapazinho cabeludo do lado esquerdo da página – do lado direito está Jimmy Carter beijando sua mulher Rosalyn, não confundam! – é este que de vez em quando perturba a tranquilidade dos leitores com mal traçadas linhas como estas.
A pauta: por ordem do chefe de reportagem Adílson Laranjeira, fui ao Detran de São Paulo ver se estava sendo cumprida sem restrições a norma que possibilitava obter a carteira de habilitação sem passar por uma autoescola, conforme portaria recém-baixada. Achava-se que os burocratas do departamento boicotariam os candidatos chamados “particulares”, para evitar que as autoescolas perdessem parte de sua bocada, reduzindo sua arrecadação e, consequentemente, minguando a distribuição de mimos aos dedicados funcionários do órgão de trânsito.
Mas não: o particular aqui não só conseguiu tirar sua CNH sem qualquer dificuldade, como conseguiu tirá-la pela segunda vez.
Como a pauta inicial perdeu seu norte – já que o Detran não estava restringindo a habilitação dos particulares – ficamos com o plano B: um motorista já habilitado conseguir uma nova habilitação a partir de um segundo prontuário, em nada relacionado ao primeiro, o que possibilitaria a condutores com a carteira cassada tirar um segundo documento e voltar às ruas.
A matéria saiu na edição de 30 de outubro de 1980, uma quinta-feira:
Como tirar duas cartas no Detran: O repórter Marco Antonio Zanfra, da Folha, conseguiu ontem sua segunda Carteira Nacional de Habilitação, no Detran, e com isso provou que qualquer pessoa que tenha cometido infração grave ou mesmo crime de trânsito, com a consequente apreensão da carteira, possa “contornar” o fato, indo ao órgão estadual de trânsito e solicitando novo documento.
Já na época em que a Folha disponibilizou os arquivos, os tempos eram outros. Os Detrans estavam informatizados e não haveria como, por vias legais, conseguir uma segunda carteira como eu consegui – felizmente para mim, que amarguei oito anos como assessor do Detran de Santa Catarina, e não correria o risco de ter de explicar o inexplicável a repórteres chatos como eu fui.

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