domingo, 7 de junho de 2026

Vida de repórter-11

 

Uma arma na mão e uma

ideia besta na cabeça

 Algum dos meus leitores ficaria espantado se eu contasse que já andei armado? Como repórter, quero dizer: com bloco de anotações, caneta Bic e um Rossi de aço inox, cinco tiros, cano curto, enfiado na cintura?

Aos que não conhecem a história, aqui vai: a revista Agora!, onde trabalhei depois de sete anos na Folha, foi o suprassumo do jornalismo policial entre 1984 e 1985. Durou exatos cinquenta exemplares e reuniu grandes repórteres da área (entre os quais, modéstia às favas, este que os incomoda de vez em quando).

 Na redação, havia um certo consenso (quase unânime) de que, por envolver pautas no meio da marginalidade, da barra pesada, os jornalistas precisariam de algo mais do que a carteirinha de imprensa para se garantir. Na onda da maioria, encampei idiotamente o espírito belicista do grupo e, como quase todos os demais, meti uma arma na cinta.

Agora, imagine o caro leitor esta figura destemperada e explosiva – para ser mais claro: eu – dada na época a constantes, dedicadas e profusas reuniões etílicas, com um negócio mortal desses nas mãos! Felizmente, não cheguei a ferir ninguém. Mas andei, bêbado, dando uns tiros de exibição numa rua movimentada, pouco depois das sete da noite de um dia de semana, o que mostra o quanto a combinação arma + eu não era uma receita muito digesta.

Durou pouco esse meu arroubo bélico, entretanto, para felicidade geral da nação. Foi logo depois de, na prática, sentir que como repórter não poderia assumir comportamentos que assumi, em busca de uma entrevista.

Minha redenção aconteceu no dia seguinte a uma matéria em que o fotógrafo da revista – o falecido Ademir Barbosa, quase um irmão para mim – e eu tentamos, no melhor estilo SWAT, arrancar uma entrevista de um chefe de quadrilha: descobrimos que um tal de Bolinha, cujo bando estava aterrorizando Osasco (Grande São Paulo), escondia-se numa favela em Quitaúna, periferia do município.

Localizamos o barraco e, em vez de bater, pedir licença e informá-lo delicadamente da intenção de fazer a entrevista, o fotógrafo meteu o pé na porta e nós dois, armas na mão, iniciamos uma invasão que poderia ter consequências desastrosas.

Se não deu ainda para visualizar a cena e suas prováveis sequelas, descrevo-a:

1 – quando o fotógrafo meteu o pé na porta, eu estava logo atrás dele; se houvesse alguém no barraco que reagisse à invasão, meu primeiro tiro certamente atingiria as costas do Ademir (quer dizer, poderíamos até conseguir uma boa entrevista, mas, por força das circunstâncias, não teríamos fotos);

2 – se houvesse alguém no barraco, de duas uma: se fossem Bolinha e seus asseclas, repórter e fotógrafo não teriam, a despeito das armas em punho, cacife para enfrentá-los a bala e, portanto, seriam abertas duas vagas na reportagem da revista Agora!; se fosse uma família de sem-teto que descobrira o barraco vazio e resolvera alojar-se, sabe-se lá quantos pobres coitados não seriam mandados para o inferno mais cedo, talvez até sem entender direito o que estava acontecendo;

3 – ora, desde quando repórter tenta conseguir uma entrevista de arma na mão e pé na porta?

Como disse anteriormente, livrei-me do Rossi no dia seguinte, num raro mas efetivo momento de autocrítica – e a tempo de evitar uma grande besteira que, ao que tudo indica, aconteceria mais cedo ou mais tarde.

Defendo hoje o desarmamento, basicamente porque arma não é para qualquer um. Arma é uma ilusão de segurança, que pode voltar-se contra a própria pessoa que a empunha, como no caso de uma mulher na Califórnia que sacou uma pistola Magnum 44 para enfrentar os ratos que cercavam seu trailer, deixou a arma cair, acabou ferindo-se com o disparo acidental e atingiu também um curioso que assistia ao entrevero.

 Foi pouco, pensando bem, para a capacidade de destruição que a mulher tinha em mãos. Acho que nem Clint Eastwood enfrentaria ratos com uma Magnum.

 No meu caso, fico pensando às vezes o que aconteceria comigo e com a Humanidade em geral se eu não tivesse aquele momento de autocrítica...

 


Vida de repórter-11

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