domingo, 28 de junho de 2026

Vida de repórter-14

 

Memórias

Esta é uma história antiga.

Aliás, tinha de ser, para figurar sob o título de memórias. Talvez os leitores em geral não se interessem muito por ela, porque quem gosta de ‘memórias da redação’ são os jornalistas mais jovens, mas é história, e envolve gente até hoje em evidência.

O ano, 1980. Metalúrgicos de São Bernardo do Campo em greve, Lula preso, a ditadura militar em franco processo de deterioração, o movimento sindical crescendo e parindo, pouco depois, um partido político.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema estava sob intervenção. A rua João Basso, onde funcionava a entidade, estava fechada por cordões de policiais. Os trabalhadores em greve faziam suas assembleias na igreja matriz de São Bernardo, não muito longe do Paço Municipal.

Lula estava preso no Dops. A polícia ia catando as lideranças grevistas restantes, uma a uma. Esta história aconteceu no dia em que prenderam Enílson Simões de Moura, o ‘Alemão’.

A Folha de S. Paulo dedicava uma página diária – editada pelo grande (inclusive verticalmente) Clóvis Rossi – aos acontecimentos de São Bernardo. Para isso, deslocava três repórteres de texto para acompanhar o desenrolar da greve: Odilon Guimarães, que cobria Economia; eu, que cobria Geral; e Ricardo Kotscho, que cobria tudo e mais um pouco. A gente passava quase o dia inteiro por lá.

Os metalúrgicos tinham no então prefeito de São Bernardo do Campo, Tito Costa, um importante aliado. Foi no gabinete dele que se discutiu e se decidiu pela conveniência de ‘Alemão’ entregar-se à polícia. E foi no gabinete dele – no décimo quarto andar do Paço – que a rendição aconteceu.

Só quem já enfrentou uma muvuca sabe a intensidade do termo. Pois aquilo lá era uma muvuca. Toda a imprensa, inclusive correspondentes internacionais, acotovelava-se na antessala de Tito Costa, à espera do desfecho do dia.

Confinada por conta própria, toda a imprensa só ficou sabendo por relatos externos que os agentes da lei, numa demonstração de profundo respeito às instituições democráticas, tinham lançado uma bomba de gás lacrimogêneo no interior do veículo onde estava Orestes Quércia, então senador da República.

Mas, voltando ao Paço Municipal, os três repórteres da Folha estavam lá, contribuindo para engrossar o caldo de jornalistas da muvuca palaciana. E já passava um bocado da hora do almoço quando Odilon teve uma ideia que me pareceu sensata: por que ficarem os três ali, sem almoçar, quando um único repórter certamente bastaria para acompanhar a prisão do ‘Alemão’?

A sugestão era que um de nós, escolhido por sorteio, permanecesse de plantão na antessala de Tito Costa, enquanto os outros dois sairiam para almoçar e voltariam rapidamente, provavelmente antes ainda do desfecho da história.

Para encurtar, dali a pouco vi Odilon Guimarães com as mãos em concha, pedindo que eu tirasse um papelzinho dobrado dentre os três ali colocados, para sortear o ‘plantonista’. Ao desenrolar o papelucho, li o nome ‘zanfra’ como o escolhido pelo destino para permitir que outras duas criaturas pudessem cumprir o salutar hábito de alimentar-se regularmente.

Não posso dizer que cheguei a pensar em fraude, aliás não sei exatamente por que fiz aquilo, mas – ainda que resignado com a missão que me cabia – pedi para ver os outros dois recortes de papel e...

Ganha uma versão em xerox autografada desta edição do ‘Vida de repórter’ quem descobrir quais os outros dois nomes que estavam anotados nos papeizinhos!

Resumindo: descoberta a ‘tentativa de fraude’, saímos os três juntos para almoçar, quase às quatro da tarde. E naquele dia, especialmente, o frango com polenta do restaurante São Judas Tadeu me pareceu ter um sabor mais revigorante.

(Na foto de Jesus Carlos, o momento da prisão do ‘Alemão’)

 


domingo, 21 de junho de 2026

Vida de repórter-13

 

Foquice

A história pode ter algumas variáveis, mas a essência é a mesma, e creio que todo jornalista a conhece: conta de um ‘foquinha’ que foi cobrir a estreia de um circo na cidade, mas houve um grande incêndio na lona, morreu muita gente, e o repórter voltou para a redação no dia seguinte e disse que a pauta tinha furado, porque um incêndio tinha cancelado a inauguração do espetáculo circense.

Acho algo meio inimaginável que mesmo o mais cru dos jornalistas protagonize uma história com esse enredo, mas a narrativa já faz parte do folclore da profissão e eu a repasso como a recebi, dezenas de anos atrás.

Pois bem. A nossa história – a real – se passa no final de 1979, na posse da nova diretoria do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo, a primeira eleição depois de vários anos de uma gestão pelega. O Sindmotoristas tinha funcionado sob intervenção durante as décadas de 1960 e 70 e emergia de seu marasmo na esteira da renovação sindical nascida no ABC paulista, notadamente em São Bernardo do Campo, com Lula.

Era a primeira vez, depois de anos opacos, que a oposição podia dar as cartas no sindicato. O direito de escolher seus próprios representantes havia sido precedido por uma greve de dois dias, aprovada por aclamação numa assembleia histórica na igreja de São João, no Brás. Toda essa mobilização mereceu a atenção da imprensa. Pela primeira votação livre depois de anos de intervenção, a Folha de S. Paulo acompanhava com carinho todo o processo eleitoral, que culminou com a eleição de Ivan Gutierrez.

No dia da posse, fui incumbido pelo chefe Adílson Laranjeira – que morreu em agosto do ano passado, e a quem fui subordinado durante sete dos nove anos em que trabalhei na Folha – a acompanhar a solenidade na sede do Sindmotoristas, na rua Pirapitingui, bairro da Liberdade. O que aconteceu, porém, é que não houve a posse: a chapa derrotada nas eleições entrou com mandado de segurança e adiou o que seria a grande festa da oposição sindical (adiou apenas, porque ela acabaria acontecendo)

E eu, jovenzinho de 23 anos, metido a engraçadinho, resolvi lembrar da historinha que contei no início deste texto: liguei para o Adílson e brinquei que a pauta tinha furado, porque a Justiça suspendera a posse da diretoria...

Quem conhece o Adílson Marques Laranjeira sabe que as brincadeiras nem sempre – ou quase nunca – eram bem-vindas. Quem estava perto de mim no orelhão do sindicato conseguiu ouvir seus gritos, me chamando de foca para baixo, achando que eu estava falando sério e berrando instruções para acompanhar a nova situação. A mim, restou balbuciar: “Adílson, estou brincando, é claro que estou cobrindo a suspensão da posse...”,

Ele respondeu um brusco “certo, me mantenha informado” e bateu o telefone. Depois dessa, nunca mais tomei a iniciativa de brincar com o chefe. Mas sempre ria de suas piadas e entrava na brincadeira quando ele a protagonizava. E então, como eu disse agora há pouco, sobrevivi ainda vários anos tendo-o como chefe.

Em tempo: Para quem não conhece o jargão jornalístico, ‘foca’ é o repórter inexperiente, em início de carreira.


domingo, 14 de junho de 2026

Vida de repórter-12

Jogando com Pelé

Eu trabalhava na sucursal paulista da revista Manchete e Pelé ia receber a visita de Franz Beckenbauer. O falecido Salomão Schwartzman, diretor da sucursal, mandou a mim e ao fotógrafo Bentinho a Santos, para fazer matéria. Chegamos ao estádio da Vila Belmiro e ninguém tinha chegado. Pegamos uma bola no vestiário e, calças arregaçadas, começamos a brincar no campo.

Pelé chegou pouco depois, acompanhado de uma equipe de produção da TV Bandeirantes, que estava gravando um especial chamado Jogando com Pelé. Entre um take e outro do especial, Pelé vinha bater uma bola com a gente. O Arnaldo Bento fez uma foto (cromo) minha abraçado com o ídolo, mas ela se perdeu no tempo.

Beckenbauer só chegou no dia seguinte. Fomos encontrá-lo na bela casa de Pelé na praia de Pernambuco, no Guarujá. Você atravessava a sala de estar e dava de cara com uma churrasqueira com um balcão para umas quinze pessoas, confortavelmente sentadas. Cheirinho de linguiça na brasa. À direita da churrasqueira, uma escada em caracol levava ao piso superior, onde ficava a quadra de tênis, e onde Beckenbauer jogava com a esposa.

À esquerda da churrasqueira, alguns passos levavam uma piscina de dimensões médias, com uma mesa e quatro bancos dentro da água. Do lado direito da piscina, de quem vinha da churrasqueira, a piscina ostentava uma enorme cascata artificial. No gramado entre o cheirinho de linguiça e a piscina, uma estátua do Rei.

Beckenbauer desceu, fizemos fotos, batemos um papinho... Ouvi dizer que Pelé tinha fama de pão-duro, mas fiquei esperando que ele nos oferecesse uma linguicinha. O máximo a que ele chegou, porém, foi sugerir “uma cervejinha” (meia). Ainda tentei apelar para seu bom senso – “eu só bebo depois de comer alguma coisa” –, mas só experimentei a linguiça pelo olfato. Pior: dali a pouco, ele deu um ultimato: “Bom, agora vocês vão embora, porque nós vamos almoçar...”.

Lamento ter perdido a foto. Lamento não ter experimentado a linguicinha – ou, no mínimo, aceitado a cervejinha. Mas nada me tira o orgulho de ter batido bola com Pelé.


domingo, 7 de junho de 2026

Vida de repórter-11

 

Uma arma na mão e uma

ideia besta na cabeça

 Algum dos meus leitores ficaria espantado se eu contasse que já andei armado? Como repórter, quero dizer: com bloco de anotações, caneta Bic e um Rossi de aço inox, cinco tiros, cano curto, enfiado na cintura?

Aos que não conhecem a história, aqui vai: a revista Agora!, onde trabalhei depois de sete anos na Folha, foi o suprassumo do jornalismo policial entre 1984 e 1985. Durou exatos cinquenta exemplares e reuniu grandes repórteres da área (entre os quais, modéstia às favas, este que os incomoda de vez em quando).

 Na redação, havia um certo consenso (quase unânime) de que, por envolver pautas no meio da marginalidade, da barra pesada, os jornalistas precisariam de algo mais do que a carteirinha de imprensa para se garantir. Na onda da maioria, encampei idiotamente o espírito belicista do grupo e, como quase todos os demais, meti uma arma na cinta.

Agora, imagine o caro leitor esta figura destemperada e explosiva – para ser mais claro: eu – dada na época a constantes, dedicadas e profusas reuniões etílicas, com um negócio mortal desses nas mãos! Felizmente, não cheguei a ferir ninguém. Mas andei, bêbado, dando uns tiros de exibição numa rua movimentada, pouco depois das sete da noite de um dia de semana, o que mostra o quanto a combinação arma + eu não era uma receita muito digesta.

Durou pouco esse meu arroubo bélico, entretanto, para felicidade geral da nação. Foi logo depois de, na prática, sentir que como repórter não poderia assumir comportamentos que assumi, em busca de uma entrevista.

Minha redenção aconteceu no dia seguinte a uma matéria em que o fotógrafo da revista – o falecido Ademir Barbosa, quase um irmão para mim – e eu tentamos, no melhor estilo SWAT, arrancar uma entrevista de um chefe de quadrilha: descobrimos que um tal de Bolinha, cujo bando estava aterrorizando Osasco (Grande São Paulo), escondia-se numa favela em Quitaúna, periferia do município.

Localizamos o barraco e, em vez de bater, pedir licença e informá-lo delicadamente da intenção de fazer a entrevista, o fotógrafo meteu o pé na porta e nós dois, armas na mão, iniciamos uma invasão que poderia ter consequências desastrosas.

Se não deu ainda para visualizar a cena e suas prováveis sequelas, descrevo-a:

1 – quando o fotógrafo meteu o pé na porta, eu estava logo atrás dele; se houvesse alguém no barraco que reagisse à invasão, meu primeiro tiro certamente atingiria as costas do Ademir (quer dizer, poderíamos até conseguir uma boa entrevista, mas, por força das circunstâncias, não teríamos fotos);

2 – se houvesse alguém no barraco, de duas uma: se fossem Bolinha e seus asseclas, repórter e fotógrafo não teriam, a despeito das armas em punho, cacife para enfrentá-los a bala e, portanto, seriam abertas duas vagas na reportagem da revista Agora!; se fosse uma família de sem-teto que descobrira o barraco vazio e resolvera alojar-se, sabe-se lá quantos pobres coitados não seriam mandados para o inferno mais cedo, talvez até sem entender direito o que estava acontecendo;

3 – ora, desde quando repórter tenta conseguir uma entrevista de arma na mão e pé na porta?

Como disse anteriormente, livrei-me do Rossi no dia seguinte, num raro mas efetivo momento de autocrítica – e a tempo de evitar uma grande besteira que, ao que tudo indica, aconteceria mais cedo ou mais tarde.

Defendo hoje o desarmamento, basicamente porque arma não é para qualquer um. Arma é uma ilusão de segurança, que pode voltar-se contra a própria pessoa que a empunha, como no caso de uma mulher na Califórnia que sacou uma pistola Magnum 44 para enfrentar os ratos que cercavam seu trailer, deixou a arma cair, acabou ferindo-se com o disparo acidental e atingiu também um curioso que assistia ao entrevero.

 Foi pouco, pensando bem, para a capacidade de destruição que a mulher tinha em mãos. Acho que nem Clint Eastwood enfrentaria ratos com uma Magnum.

 No meu caso, fico pensando às vezes o que aconteceria comigo e com a Humanidade em geral se eu não tivesse aquele momento de autocrítica...

 


Vida de repórter-15

O adeus à velha rodoviária Os mais antigos devem se lembrar de que nem sempre a rodoviária de São Paulo funcionou naquele trecho da Marginal...