domingo, 3 de maio de 2026

Vida de repórter-6

O dia em que entrevistei Lucélia Santos

Foi com a atriz Lucélia Santos que vivi talvez minha primeira aventura como jornalista. A aventura não foi exatamente – e infelizmente – com Lucélia, mas envolveu as circunstâncias em que se deu uma entrevista que fiz com ela, eu em início de carreira, em 1978. Afinal, só pode ser chamado de aventura, ou desventura, ou porra-louquice, o fato de você viajar de São Paulo ao Rio tendo praticamente o dinheiro da passagem no bolso, sobreviver uma semana numa cidade estranha e ainda voltar para casa com o primeiro frila de uma profissão que, apesar de tudo, é capaz de provocar algumas lembranças boas.

Foi em novembro de 1978, durante o gozo de minhas primeiras férias como repórter da 'Folha' – e essa informação inicial já serve para mostrar que tanto Lucélia quanto eu já temos mais de 40 anos de carreira. Saí de São Paulo pré-pautado: tinha acertado com o competente Valdir Zwetsch, editor da revista adolescente Geração Pop, da Abril, que traria uma entrevista com Chico Buarque sobre os jovens e outra com o elenco do seriado Ciranda, Cirandinha, da Globo, também centrado nos jovens: Lucélia, Fábio Jr., Denise Bandeira e Jorge Fernando.

Tinha o telefone da casa de Chico, e a primeira coisa que fiz no Rio, logo depois de instalar-me num hotelzinho de quinta categoria próximo à praça Tiradentes, foi ligar para ele. Em vão: um problema no cabeamento na região da Gávea tornava impossível falar com o grande Chico Buarque de Holanda por telefone.  A sorte – embora mais tarde veremos que isso de útil nada me trouxe – foi ter conseguido encontrar com ele na porta do Teatro Ginástico, onde Marieta Severo estrelava a peça Ópera do Malandro. Chico até se dispôs a uma entrevista, desde que encaixada entre as gravações do especial de final de ano que estava sendo produzido para a Bandeirantes, mas pediu que eu lhe telefonasse para marcar. Seu telefone, porém, continuou impraticável.

Paralelamente, consegui o telefone de Lucélia na sala de imprensa em frente à Globo, com uma repórter que cobria a emissora. A atriz morava numa cobertura da avenida Almirante Saddock de Sá, perto da lagoa Rodrigo de Freitas. Era casada com o maestro John Neschling. Lucélia foi um amor: atenciosa, depois de meia hora de entrevista, quis que o repórter a acompanhasse a uma apresentação sei lá de quem no Teatro Tablado. Sem um puto no bolso, o repórter deu um jeito de recusar, com o apoio tácito de Neschling – que, apesar da tentativa de mostrar-se simpático, nunca escondeu que não gostaria que o relacionamento se estendesse além daqueles 30 minutos de entrevista.

Aliás, esses 30 minutos com Lucélia Santos acabaram sendo meu único resultado vitorioso no Rio. Durante a semana que passei lá – ora almoçando, ora jantando, ora sem um nem outro (teve dia que passei com dois sonhos de padaria) – fui todos os dias à porta do Teatro Ginástico, na tentativa de encontrar-me novamente com Chico, já que o telefone só dava ocupado. E o que eu consegui, entretanto, foi somente encher o saco de Marieta Severo. Todos os dias, quando ela estacionava sua Brasília azul – com o para-lama dianteiro esquerdo ralado e o para-choque sem a polaina – no subsolo do teatro, eu abria a porta do carro e ela descia com um sorridente, mas nem por isso menos incisivo, “você de novo?”.

Vale lembrar que Marieta mostrou-se bastante acessível e compreensiva e se dispôs a servir de ponte entre o entrevistador e o entrevistado. Até que ponto essa disposição foi sincera, não sei. Só sei que estou até hoje esperando pela entrevista.

Na volta a São Paulo, meu dinheiro foi suficiente para a passagem Rio-SP, para o ônibus da rodoviária até minha casa em Pirituba e para um croquete de carne numa das paradas do velho Cometão. Minha permanência no Rio durante uma semana era tão improvável que fiquei sabendo, ao chegar, que a família tinha ligado para a polícia carioca, na tentativa de localizar meu cadáver. Fui recebido em casa com um monte de impropérios e de caras amarradas. A bronca pela porra-louquice da viagem era maior do que a alegria de me rever inteiro.

Mas houve a recompensa: a entrevista com Lucélia Santos foi publicada na edição de janeiro da Pop e rendeu um troquinho salvador.

 

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