domingo, 17 de maio de 2026

Vida de repórter-8

Fugindo da briga

Só me lembrei desta história quando vi a foto – e me reconheci nela – publicada pelo autor, Roberto Faustino, o querido Robertinho, no Facebook. Era a imagem de uma pancadaria patrocinada pela PM contra os metalúrgicos de São Bernardo do Campo, durante a greve de 1980: no fundo da paisagem turbulenta, com cara de apavorado, mas imune à fúria dos fardados, lá estava este incólume repórter!

Cobrir greve não era exatamente a minha área, mas fui escalado pela Folha de S. Paulo para fazer as matérias de ambiente, enquanto dois medalhões – Ricardo Kotscho e Odilon Guimarães – cobriam o movimento grevista em si. O material rendia uma página diária, editada pelo saudoso Clóvis Rossi. Outro saudoso, Ubirajara Dettmar, cuidava das fotos.

Naquele ano, o Sindicato dos Metalúrgicos estava sob intervenção e a PM ocupava a rua João Basso, onde funcionava a sede da entidade. Lula, que presidia o sindicato, estava preso. Os trabalhadores faziam suas assembleias na frente da Igreja matriz de São Bernardo, e depois seguiam pela rua Marechal Deodoro, em passeata. Eram inevitáveis os protestos quando o grupo chegava diante do cordão de isolamento armado na esquina com a João Basso.

Numa dessas, a receita desandou. Os PMs que compunham o cordão de isolamento, todos armados de fuzis, resolveram responder às provocações dos trabalhadores do melhor jeito que lhes ensinaram: na porrada!

Foram para cima dos grevistas com sede. Chegaram a quebrar a coronha do fuzil nas costas de um deles. As portas do comércio estavam fechadas. Quando vi a massa de capacetes azuis vir em minha direção, encostei-me na porta de uma loja e deixei bem visível que estava com um calhamaço de papel na mão, anotando. Julguei que estaria mostrando que era repórter e que estaria a salvo das agressões.

Não sei exatamente por que, mas deu certo. A pancadaria durou quase cinco minutos, e eu continuei parado junto à porta da loja outros cinco minutos, para restabelecer os batimentos cardíacos. “Foi boa sua tática, de ficar parado anotando”, avaliou um colega. Eu não respondi isso na hora, mas poderia ter dito: não foi tática, minhas pernas é que estavam paralisadas, mesmo!

 Em tempo: a foto de Roberto Faustino, que atuava pela Cooperativa dos Jornalistas de São Paulo, foi publicada pelo Jornal da Tarde e ganhou o Prêmio Herzog em 1980.

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